GÖBEKLI TEPE - 9.000 a.C.
 descrição: Göbekli Tepe é o nome com que ficou conhecido o parcial conjunto arquiteônico em pedras edificado no período neolítico – provavelmente um local de culto – encontrado na atual Turquia. localização: O sítio situa-se no topo de uma montanha da planície de Harran, próximo à cidade de Sanliurfa ao sudeste da Turquia em fronteira com o norte da Síria, a poucos quilômetros da atual Urfa, antiga Edessa. A região da escavação tem aproximadamente 15 metros de altura por 300 de diâmetro. etimologia: O termo “Göbekli Tepe” é o nome do lugar em que foram encontrados os blocos de pedra arranjados em formação circuncêntrica. Em turco, “tepe” significa “topo” e, aplicado às formações geográficas, adquire o sentido de “colina”. O outro termo é “göbek”, que significa “barriga, ventre ou umbigo” ou, em sentido geral, simplesmente “centro”. O termo pode ser traduzido por “Monte barriga”, significado que denota a topografia da região.  cronologia: a datação foi realizada pelo método de radiocarbono e indica datas entre 9130 e 7270 a.C.  descoberta:  em meados de 1960, um grupo de pesquisadores norte-americanos reconheceu algumas anomalias que indicavam atividade humana, mas consideraram que talvez se tratasse de um antigo cemitério bizantino. Por volta de 1994, o arqueólogo alemão Klaus Schmidt do German Archaeological Institute iniciou as escavações em conjunto com o Museu de Sanliurfa.gobekli_tepe_19_foto_v_muse
edificação e arquitetura: as paredes de pedra formam pilares monolíticos de calcário em forma de “T”. Cada um dos monólitos pesa cerca de 10 toneladas e tem até 3 metros de altura. Há dois pilares maiores no centro e o topo  indica que havia cobertura. Foram desenterradas quatro estruturas principais, mas pode haver mais dezesseis delas.
Os círculos de Gobekli Tepe variam de 9 a 30 metros de diâmetro, cercados por paredes em forma retangular que chegam a seis metros de altura. A construção parece ter sido realizada em etapas. As  estruturas mais antigas pertencem ao período neolítico pré-cerâmico, por volta de 9000 aC. As etapas posteriores, até 8.000 a.C. são menos elaboradas, sugerindo decadência técnica. Os primeiros níveis contêm a maior parte dos pilares em forma de T e esculturas de animais. símbolos e esculturas: as grandes lajes de pedra são esculpidas com figuras de animais e com o que parece ser pictogramas abstratos. A significação desses sinais pode indicar sacralização de alguns dele, tal como costumam ser encontrados na arte rupestre no interior de cavernas em períodos mais antigos. Pássaros, raposas, leões, serpentes, javalis, garças, patos, escorpiões, formigas e outros podem ser vistos esculpidos em baixo-relevo nas paredes de pedra. No interior dos círculos também foram encontradas esculturas independentes de animais e mesmo uma estátua representando um ser humano. As imagens de animais podem envolver proto-narrativas de caças, ilustrar a força da natureza ou ser um tipo de culto. As hipóteses não são excludentes. Os escultores de Göbekli Tepe podem ter simplesmente representado os animais que viam, ou talvez criaram representações simbólicas dos animais para uso em rituais para garantir o sucesso da caça. Esquema semelhante já se viu nas pinturas rupestres mais de 10.000 anos antes de Göbekli Tepe. finalidade da edificação: a estrutura circular concêntrica sugere, em princípio, que se tratava de um local de culto. Se isso for correto, trata-se do mais antigo templo da história dos humanos encontrado até agora. A estratificação das camadas sugere que muitas gerações utilizaram o local por milênios de atividade, tocando o período mesolítico. Parece não haver construções em torno do núcleo central, podendo indicar que não se tratava de um local de habitação fixa cujo centro seria o complexo circular, mas que o lugar fosse um templo para algum tipo de culto, frequentado por mais de um grupamento. Klaus Schmidt acredita que Göbekli Tepe atraiu pequenos grupos nômades de várias regiões ao longo do Sudeste da Anatólia.ritos e cerimônias: há poucas evidências a esse respeito, mas se pequenos grupos nômades de diversas regiões do sul da atual Turquia chegaram em Gobekli Tepe como peregrinos, lá fizeram sacrifícios de animais. A equipe de arqueólogos descobriu ossos de animais selvagens, incluindo gazelas, veados, javalis, cabras, ovelhas e bois, além de diferentes espécies de aves, como abutres e patos, espalhados pelo sítio, muitos deles esculpidos no local. Schmidt levantou a hipótese também que os círculos mais baixos poderiam marcar túmulos de pessoas importantes e que os pilares representariam seres humanos. Nesse sentido, as práticas de culto poderiam ser uma espécie de culto dos antepassados. Os pilares em forma de T poderiam ser corpos humanos estilizados, "como uma reunião de seres de pedra". 

 


Veja mais:

* Artigo da Revista National Geographic.
   O berço da religião por Charles Mann e fotos  
   de Vincent Musi.

* Artigo da Archaeology Magazine.
   The world's first temple por Sandra Scham.

* Vídeo Gobekli Tepe Reconstructed , uma  
   possível reconstrução livre e virtual do núcleo 
   central.

* Vídeo Gobeklitepe, The world's first temple
   em montagem na linha do tempo.
   


 





importância:  no Oriente Próximo não há nenhum sítio que possa se equiparar a este do ponto de vista de sua localização topográfica, sua arquitetura megalítica, suas esculturas de pedra em larga escala e a presença de outros objetos inabituais para o período. Destaca-se, também a função religiosa que, segundo Schmidt, dificilmente poderia ser negada. Contrariamente às primeiras comunidades sedentárias conhecidas que respondem a fatores ecológicos e econômicos, Göbekli Tepe chama a atenção por seus aspectos muito diferentes. Em suma, sua realidade não se encaixa no modo pelo qual a história dos humanos foi contada até agora. Antes da descoberta de Göbekli Tepe, as teorias em voga preconizavam que os humanos do neolítico estavam organizados em pequenos grupos de caçadores-coletores, e que o primeiro complexo de práticas religiosas teria se desenvolvido somente depois da sedentarização, por meio da agricultura. O principal teórico a esse respeito foi o filólogo e antropólogo australiano Gordon Childe (1892 – 1957) que cunhou expressões como “Revolução Neolítica e Revolução Urbana”. Childe aplicou um tipo de corte na Pré-História, na passagem dos povos nômades para a sedentarização e o início dos primeiros povoados e cidades. Pareceria ter havido, assim, um tipo de passagem de um homo sapiens passivo frente à natureza, para um ativo frente a ela. A fixação definitiva teria levado a uma economia estável e alterado a relação do homem com os animais e a vegetação, resultando numa alteração na relação do grupo. Com isso, estruturas religiosas, castas sociais e a divisão do trabalho teriam forjado a evolução vista, em seguida, nos centros urbanos. O primeiro, alocado na Mesopotâmia, às margens do Tigre e Eufrates, com certa mobilidade de datação entre 7.000 e 10.000 a.C. e base da civilização Suméria. A este seguiriam outros centros, com ou sem contato em relação ao primeiro, ao longo de outros grandes rios (Nilo, Amarelo, Indo etc.) O fato de um tipo de construção nas condições geográficas de Göbekli Tepe ser encontrada e datada por volta de 9.000 a.C. coloca em xeque muito da suposta “revolução neolíticagobekli_tepe”, assim como o mecanismo de pensamento dos humanos antes da sedentarização, suas técnicas e conhecimentos, além de suas estruturas sociais e religiosas. O fato tem alimentado uma série de outras teorias e hipóteses que podem ser mesmo mais frágeis do que aquela que se passa a questionar, indo desde a associação do lugar com o bíblico Jardim do Éden até a visita de seres extramundanos. Klaus Schmidt minimiza as extravagantes interpretações espirituais de Göbekli Tepe, mas concorda que se trata de um santuário de profundo significado no mundo neolítico, local-chave para entender a transição da caça e da coleta para a agricultura, e da tribo à religião regional. A questão mais importante é que a datação 9.000 a.C. para um tipo de construção nessas condições dificulta a aceitação corrente das teorias do século XX de que os lugares de culto teriam ocorrido após a completa sedentarização, notadamente nas margens do Tigre e Eufrates. Outra questão relevante diz respeito à organização necessária para a construção do complexo. Schmidt estima que pelo menos 500 pessoas foram obrigadas a cortar entre 10 e 50 toneladas de pedreiras distantes, mover os monólitos e erigi-los. Estima-se que para tal empreitada seria preciso, no mínimo, uma classe de líderes religiosos que supervisionasse o trabalho e controlasse os rituais no local. Se isso for certo, tratar-se-ia, então, de uma casta sacerdotal muito anterior do que se imaginava. 

São Paulo, 06 de julho de 2011
Texto: Miguel Attie Filho
Última modificação em 06/07/11



 

bibliografia:

* Peters J. & Schmidt K. 2004. – Animals in the symbolic world of Pre-Pottery Neolithic Göbekli Tepe, south-eastern Turkey: a preliminary assessment. Anthropozoologica 39 (1) :179-218.
 * Schmidt Klaus. Göbekli Tepe, Southeastern Turkey. A Preliminary Report on the 1995-1999 Excavations.
In: Paléorient. 2000, Vol. 26 N°1. pp. 45-54 in 
http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/paleo_0153-9345_2000_num_26_1_4697

* Dicionário turco-português in
 http://www.brasilturquia.com.br/Dicionario/sozsrch.asp

Mann C. O berço da religião, Revista National Geographic em http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/edicao-135/inicio-da-civilizacao-gobekli-tepe-628802.shtml?page=0

* Sham, S. The world’s first temple, Archaeology Magazine in
http://www.archaeology.org/0811/abstracts/turkey.html.

 



Abaixo, clique sobre algumas imagens de Göbekli Tepe  


                      







Pilar em "T"        Animal                   Pilares            Interior               Reconstrução       Complexo        Animal esculpido
                                 entalhado                      Foto V. Muse                                          virtual                        central




                          
Vista                     Localização        Crescente             Escavações               Baixo-relevo             Estatueta     Klaus Schmidt
panorâmica                                    fértil
 



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